Qual mudança precisamos? Comentários ao desabafo de Renan Scheidegger via Facebook

"Não podemos resolver nossos problemas com o mesmo pensamento de quando os criamos"

“Não podemos resolver nossos problemas com o mesmo pensamento de quando os criamos”

 

Concordo com bastante coisa do texto de Renan abaixo, publicado dia 6 de maio de 2014 no Facebook, especialmente sobre a realidade não apenas da medicina no país, mas do Serviço Público como um todo. Lembrem que Estado que não funciona abre mercado$$. Por exemplo, se o posto de saúde não funciona você vai atrás de Plano Privado de Saúde. Se o DETRAN não funciona você paga despachante. Pense: segurança privada, educação privada, saúde privada, bairros privados, previdência privada … só faltam vias públicas privadas (ah… são nossos carros e nosso transporte público largado!!!).

Cada vez que você é forçado a contratar um intermediário, você perde autonomia cívica e dinheiro (a outra ponta, evidente, é que alguém enriquece – daí os fortes intere$$e$ que manipulam o Congresso, nosso produtor de Leis).

Existem uma série de DOGMAS (pois não são lógicos, são crenças, generalizações) de que TUDO que é público SEMPRE será pior (o que decorre justamente de decisões Políticas sobre o que priorizar no gasto público e o que não priorizar). Para entender o que estou falando muito por cima, recomendo fortemente a leitura do livro “A Civilização Capitalista“, de um autor que disseca a questão de maneira fácil de entender, desde a Antiguidade até o estabelecimento do Capitalismo do professor de Direito Fabio Konder Comparato.

E antes que venham bater chavões, já adianto: este bipolarismo radical cega a mente de todos nós para a necessária crítica ao Capitalismo, regime atual que não resolve todos os problemas. A História da Humanidade é assim, civilizações têm seu auge, e em algum momento decaem. Outras surgem. Nós ficamos, e se as transições não forem violentas, muito melhor não?

 

Não sei se a solução agora será corrigir o sistema, mudar o sistema, trocar de sistema. Sei apenas que precisamos discutir isto JUNTOS, e não apenas os DONOS DO PODER  tradicionais do país continuarem, como sempre, ditando as regras para a base da pirâmide. E não há como discutir sem compreender como o estado atual das coisas se formou. E não há como ser verdadeiramente livre, autônomo, para decidir nossa vida política.

Há quem diga que no Brasil a escravidão venceu, pois nossas “conquistas cívicas” não foram conquistas, mas sim dadas por quem estava no poder, embora reconheça que muito provavelmente nossa sociedade tenha o ambiente ideal para liderar o próximo passo de nossa evolução, numa fórmula original. Domenico de Masi, autor de O Ócio Criativo, também defende a ideia em seu novo livro “O Futuro Chegou“.

 

Não tive tempo de lê-lo por completo ainda por motivos pessoais, mas gostei muito da abordagem não mais cega na bipolaridade, mas multilateral, formando um verdadeiro MOSAICO citando muitas culturas / paradigmas e o que herdamos delas. Penso que o caminho é por aí.

 

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O reflexo final desta “cegueira branca bipolar” é ficarmos sempre no mais do mesmo, dando voltas sem sair do lugar, pensando que apenas com o voto, mas sem mudanças estruturais, vamos conseguir mudar alguma coisa. Existe MUITO INTERESSE em um Estado Mínimo, abrindo mercados, esvaziando serviços públicos, o que será ótimo para quem tem bastante riqueza, mas vai tirar o apoio do Estado a quem precisa.

 

No final das contas, por trás de toda a discussão política / ideológica / econômica / teórica, existe uma crença ou descrença fundamental num princípio de SOLIDARIEDADE e FÉ nas pessoas, e um outro de EGOÍSMO e APOSTA NESTE EGOÍSMO das pessoas. Qual queremos para nossa sociedade?

 

colaboração

 

 

Esta é a questão que deveria ser discutida coletivamente na sociedade, como uma grande mesa redonda de corações e mentes abertas, ao invés deste carnaval marketeiro que semeia ódio para mudar as cabeças do Poder (mas não mudar absolutamente nada nas estruturas deste poder, permitindo que nós simples cidadãos tenhamos voz no espaço público, para decidir os rumos da nossa sociedade.

Hoje nenhum candidato a presidente me representa. Pouquíssimos congressistas têm minha confiança.

E sou obrigado a votar no “menos pior”, isto me irrita profundamente pois me soa como uma mordaça.

A mudança é necessária, mas para melhor, não apenas cortar a cabeça da Hidra para entrar outra no lugar, abafar legítimas manifestações populares espontâneas, e continuar no mais do mesmo.   tiamat---ditadura-ideológica   Este texto não é dirigido a ninguém, apenas um desabafo de quem vê tanto ódio sendo gestado por pessoas da Mídia, influenciadores de opinião pública para imputar as mazelas apenas ao governo atual, ao invés de desenvolver diálogos que eduquem CIDADÃOS e tragam autonomia pela leitura individual e escolha de cada um não dos candidatos mais marketeados, mas sim dos melhores projetos.

Ninguém fará isso por nós, pois autonomia não se ganha, se exerce. Assim como educação e cidadania.

“You may say I’m a dreamer, but I’m not the only one …”

 

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íntegra do texto que me provocou a escrever e publicar um pensamento pensado por muitos anos…..

Status Update By Renan Scheidegger

Sou médico, tenho apenas 1 ano de formado e, por mais estranho ou ridículo que isso possa soar aos seus ouvidos, eu estou provavelmente passando por uma crise profissional. Mas tudo bem, isso também soa ridículo aos meus ouvidos. Se hoje eu pudesse dar um conselho a quem está prestando vestibular para medicina, eu aconselharia que desistisse enquanto há tempo. A não ser que esteja disposto a levar uma vida de sacrifícios sem resultados e decepções diárias. Ser médico no Brasil não compensa. Ser médico no Brasil não é para qualquer um. Trabalho em um posto de saúde na periferia da capital paulista, onde todos pensam haver os melhores recursos. Possuímos apenas 6 consultórios médicos (minúsculos, diga-se de passagem), mas somos responsáveis por aproximadamente 37 mil pessoas. Eu, como médico do Programa de Saúde da Família, tenho que prestar assistência a aproximadamente 4 mil pessoas (cerca de mil famílias). Faço atendimentos de clínica geral, pediatria, ginecologia e também realizo consultas de pré-natal. Mas o meu trabalho não se restringe apenas a consultas. O Ministério da Saúde determina que além de consultas, eu organize e execute ações educativas para a população, e ainda garanta consultas domiciliares àqueles pacientes que não podem se locomover até o posto de saúde. Mas como realizar um trabalho de qualidade quando não se tem estrutura para isso? [Realmente não faz sentido ser cobrado por um trabalho sem ter os recursos disponíveis. Mas dizem que “serviço público é tudo ruim e não presta”: por que? Quem decide? Certamente não é o médico do posto de saúde, um simples mortal como você e eu. Não são os de “baixa patente” que decidem estas coisas… se fossem, tenho certeza que muitos absurdos teriam sido resolvidos, pois quem em sã consciência não deseja ter um ambiente de trabalho saudável e ser reconhecido? As decisões vêm dos Donos do Poder, já citados acima]

Comecei a trabalhar nessa unidade de saúde em março do ano passado e desde então vinha solicitando à administração alguns materiais básicos, como balança, balança pediátrica e régua antropométrica (aquela régua de madeira para medir o comprimento dos bebês). Após alguns longos meses de espera, enfiaram no meu consultório uma balança analógica (nova, tenho que dar o braço a torcer – e, sim, funcionava!), uma balança pediátrica enferrujada e uma régua antropométrica encardida com as marcações numéricas já bem apagadinhas. [Economizar sempre é bom, mas o que precisamos no Estado Brasileiro, alardeado como ‘pesado”, é cortar o desnecessário. Você pode ir num médico e ele dizer: perca 20 kg. Você deve perder peso morto, gordura. De nada adianta cortar um braço. Isso que acontece no Brasil, temos funções prejudicadas, em benefício de fins não muito solidários: corrupção, pagamento de juros de dívida (sim, é polêmico, mas prefiro manifestar meu pensamento abertamente. Este, ao invés de esconder o argumento, te chamo para o debate: o que pensa?). E a sonegação que faz com que perdamos recursos públicos. Se alguém não pagou, sobra pra eu e você pagar mais, e sobra para reduzir benefícios necessários… Veja novamente a pizza (gráfico) da despesa pública federal. E para dar a dimensão: a Sonegação, que não aparece na pizza, equivale a 20 Programas Bolsa Família no ano!!!! O que é mais solidário reduzir?]

Certa vez questionei à administração sobre a viatura da prefeitura que faria o transporte dos profissionais até a casa dos pacientes, uma vez que nem todos moram próximo ao posto de saúde; o que ouvi foram gargalhadas bem na minha cara e fui informado que deveria realizar as visitas domiciliares a pé ou usando o meu próprio carro. E é o que faço há pouco mais de 1 ano; vou às casas dos pacientes a pé mesmo… Ou vou com o meu próprio carro e o deixo estacionado lá, em uma área de risco, onde há tráfico de drogas e eventuais tiroteios, porque, é claro, a segurança nesse país também é uma fraude. [E assim o serviço público vai definhando, até que você cidadão pense: acaba com tudo, não quero pagar mais nada! Será este o caminho??]

Uma vez, em um determinado mês no ano passado eu não cumpri as metas de visitas domiciliares e consultas exigidas pelo Ministério da Saúde, e fui duramente cobrado por isso. Argumentei com a administração, já que naquele mês eu havia sido convocado para muitas reuniões durante o expediente. Além disso, argumentei dizendo que é impossível prestar uma assistência minimamente decente e de qualidade com consultas de 15 minutos de duração, como é determinado; fora o fato de que é exigido que se faça, em média, visitas a 6 casas para avaliação geral de todos os membros da família em um período de 3 horas. Não existe qualidade nisso. A resposta que obtive foi “Não estamos falando de qualidade. Estamos falando de meta, estamos falando de números. Cumpra a meta.” [A tendência dos governos é fazer metas matemáticas, mas poucos as fazem refletir a realidade. Assim, a estatística abusada passa a ser um instrumento de marketing político: ‘Reduzi em 25% a criminalidade’ … no papel]

Essa demanda, não vem só por parte da administração. Essa cobrança vem também dos pacientes, que não conseguem entender que nós, funcionários desse sistema falido, somos tão vítimas do descaso quanto eles. Não há infraestrutura, não há funcionários suficientes e consequentemente não há consultas suficientes. Já tive a porta do meu consultório chutada, já tive o meu consultório invadido por pacientes que não conseguiram vaga de consulta, já colocaram o dedo na minha cara, já tentaram me agredir, já fui chamado de preguiçoso, vagabundo, imprestável, filho da p*ta e tudo mais… E, sim, já fui ameaçado. Perceba que em momento algum eu me queixei do meu salário, em momento algum eu disse que estou financeiramente insatisfeito. Mas não sou pago para servir de outdor para propaganda política. Não sou pago para fazer milagres em um ambiente sem recursos. Não sou pago para salvar o mundo! [Concordo 100%, a Administração Pública deve servir à Sociedade – entendo este o verdadeiro Estado Brasileiro, nós – e não aos governos transitórios. Eles têm de nos representar, e não a si mesmos!!!!!]

Eu estou cansado desse sistema falido. Cansado de acordar cedo, atender 33 pacientes em um único dia e ainda ouvir que se a população está desassistida, a culpa é minha. Cansado de ser fantoche propagandista desse governo imundo.

[daqui para a frente, não concordo com tudo, mas copiei para manter a integridade da mensagem do Renan. Especialmente pois, não defendendo o governo atual ou o partido atual, mas tenho certeza que a mudança necessária precisa ser estrutural e não apenas no voto. O mais importante disso tudo, em minha opinião, é direcionar a insatisfação para mudanças efetivas, ao invés de um ódio irracional que promova a justiça com as próprias mãos por um roubo…. isto é medieval!!!.] Corremos um sério risco de após estas eleições continuarmos nas mesmas, sem voz, sem influência política, nós pobres mortais da base da pirâmide, achando que o novo Líder do Cavalo Branco das Margens do Ipiranga vai mudar a nossa vida, naquilo que nós devemos agir para mudar… nós que não votamos leis, nem somos ouvidos por quem vota as leis. A lei da Copa e dos benefícios à FIFA não me representa. Muito além da questão polêmica das bolsas (que entendo solidárias e respeito opiniões divergentes). Não tive direito à voz. Não tenho como sugerir alternativas de desenvolvimento. Que CIDADÃO de ESTADO DEMOCRÁTICO somos nós?]

Ouvir a senhora Dilma Rousseff (que não teria competência para ser presidente sequer de uma associação de moradores), dizer hipocritamente que os médicos cubanos (coitados trazidos ao país sob um sistema de semi-escravidão em um golpe de maketing eleitoreiro) são mais atenciosos que os médicos brasileiros me enoja. Ao que me consta, ela não tratou o seu linfoma com um médico cubano ou em um hospital sucateado do SUS, mas no Hospital Sírio-Libanês com ótimos médicos brasileiros, os melhores especialistas desse país. O Bolsa-família, sistema de compra de votos disfarçado de programa social vai receber aumento de 10% este ano, curiosamente no ano de eleições, onde a senhora Dilma se candidata à reeleição. E ironicamente essa notícia foi dada por nossa nada excelentíssima justamente no dia do trabalhador, ou seja, quem não trabalha vai receber aumento de salário no dia do trabalhador. E, pasmem, por inúmeras vezes já ouvi pacientes falando durante a consulta que não precisam trabalhar porque recebem o Bolsa-família. Mas tudo bem, como ela mesma diz, estamos trazendo 36 milhões de brasileiros para cima da linha de pobreza extrema, diminuindo o índice de pobreza em 70% dentro de 11 anos e superando a meta da ONU. Tá ótimo! Educação e saúde de qualidade para quê? Batemos a meta e é isso que importa.

E o Bolsa-recomeço? Iniciativa bonita desse governo tão solidário, não fosse um tiro no pé, assumindo sua incompetência em garantir reabilitação aos dependentes químicos. Então o jeito que encontraram foi pagar reabilitação aos usuários de crack em clínicas de reabilitação privadas, a um valor mensal de 1.350 reais… E os meus agentes de saúde trabalhando arduamente para receber a metade disso no final do mês. Melhor ainda é o Auxilio-reclusão, onde a família de um detento recebe 682 reais por mês. Já ouvi pacientes falando que acham até bom os maridos estarem presos, porque recebem uma grana todo mês. Ah, tudo bem, esse “auxílio” só é pago às famílias dos detentos que contribuem para a Previdência Social. Mas me parece irônico oferecer qualquer benefício ou auxílio a alguém que cometeu um crime. Me parece que o sujeito não precisa pensar duas vezes antes de realizar qualquer ato criminoso, ele não precisa se preocupar caso, eventualmente (sim, eventualmente), for preso, pois sua família ficará bem. Enfim, opinião pessoal. Podem me julgar.

Então basicamente aqui, funciona assim: Tem uma penca de filhos e não quer trabalhar? Tudo bem, nós garantimos o seu sustento, pois temos dinheiro para isso. Se viciou em drogas e quer se recuperar? Bom, nós não temos competência para isso, mas temos dinheiro, então pagamos quem tem competência para fazer isso por nós. Cometeu crime e foi preso? Tudo bem, essas coisas acontecem. A gente garante o sustento da sua família. Não se preocupe, também temos dinheiro pra isso.

Quer ser um sujeito decente e ganhar dinheiro honestamente? Bom… Aí… Aí a gente faz assim: você vem, obedece as nossas regras direitinho e tem que trabalhar bastante para receber o salário. Mas a gente desconta uma porcentagem da sua grana todo mês, viu? Porque afinal de contas a gente tem todos esses programas sociais pra dar conta e alguém tem que financiar isso, né? Ah! E tem que cumprir as metas, viu?! Se não a gente briga… E não garantimos infraestrutura ou qualquer condição de trabalho, porque a gente não gasta dinheiro com essas futilidades… E no início do ano tem o Imposto de Renda… Ah! E de vez em quando a dona Dilma vai na TV falar mal de vocês. Não está fácil… Me sinto como se precisasse apagar um incêndio tendo apenas minha boca, um pouco de saliva e umas cuspidinhas fracas. Mas tudo bem, daqui a 1 mês tem Copa do Mundo. O Brasil é lindo, Deus é brasileiro e já já a gente esquece tudo isso, né? ‪#‎BrasilUmPaísDeTrouxas‬ ‪#‎Copa2014‬ ‪#‎WoldCup2014‬

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