O gosto amargo (ou libertador) do silêncio

Domingo, silêncio…. Ressaca das mobilizações, ressaca do futebol. Paz, ou sabor amargo? Feito tudo o que foi feito, o que mudou? O que vai mudar?

barco tempestade tubarões

O Brasil se embriagou de corrupção e agora está vomitando revolta. Espasmos sem controle, misturados, doloridos, mas necessários para começar,  isso mesmo , COMEÇAR a mudar algo.

As idéias se tornaram uma Torre de Babel, uma conversa de surdo e mudo, com cada um falando uma coisa, cada um querendo uma pauta, a violência sendo o foco novo da mídia manipuladora.

Babel

O que fica?

Muita gente pensou que se mudaria só com a 1ª semana de manifestação.

Alguns, pensavam numa mudança há tanto tempo, com suas crenças pessoais, que esperam que agora aconteça esta mudança idealizada. Tirar a presidente, acabar com a direita, acabar com a esquerda, acabar com os governos, acabar…. com o que não é o que se quer.

“É que Narciso acha feio o que não é espelho”.

Sim, há muita coisa errada e há deve haver mudança!!! Isso não está em questão.

O problema é conseguir um caminho de DIÁLOGO, um caminho que inclua todas as pessoas.

Por que, no fim das contas é disso que falamos: PESSOAS. Seres humanos. À parte das teorias, das racionalizações, o que sobra são pessoas. São as pessoas que agora, neste domingo, estão com uma dor de cabeça e um amargo na boca. Que agora sentem insegurança diante da mudança que pode vir, ou da que não vier. São as pessoas que sentem medo, que buscam paz. São pessoas. Pessoas que têm de fazer escolhas livres, para abrir caminho para uma sociedade nova.

Este é o elemento comum. Ser pessoa, ser humano.

E daqui é o ponto de partida; daqui tenho de respeitar o outro, e OUVIR as idéias mesmo que não sejam de acordo com as minhas.

Esta semana ouvi dois amigos a favor da ditadura, li idéias anarquistas, recebi argumentos de “esquerda” e de “direita”. Ouvi até o argumento do governo no anúncio da Dilma.

E diante de tantas idéias diferentes, antagônicas, contraditórias, o que fica?

1. Não posso ser excludente. Preciso ser inclusivo. Quero dizer que não posso usar de nenhum argumento para tirar gente da discussão. Isso não é fácil, pois normalmente se ouço argumento diferente do que penso, o impulso é “fechar a mente” e nem dar ouvidos. Ou fazer piadinha no Facebook, com o Batman dando tapa na cara do Robin. Mas para dialogar é preciso ouvir, além de falar. Conversa em que os dois só falam e não ouvem, é pregação sem troca. Aí está um nó a ser desfeito. Muitos já têm o copo cheio, não cabem novas idéias, não há um olhar fresco para a novidade que aparece. Sem isso, resta apenas o conflito – seja de idéias, seja de corpos.

2. Não posso ser pré-conceituoso. Preciso ter a mente aberta. Muito ligado ao 1, o pré-conceito é tomar algo sem parar pra avaliar de verdade. O momento atual  é de enorme riqueza, pois permite que reavaliemos tudo, tudo!

3. Não posso ser violento. Preciso ser fraterno com o outro. Quero dizer que, mesmo não concordando com uma posição, ou uma idéia de uma pessoa, não posso ter chiliques ou pitis e esculachar ela. E essas micro-violências seduzem, tremem os dedos, num afoito “compartilhar”. Por que isso é politicamente incorreto? NÃO! Porque violência gera violência. Se tenho um argumento, melhor demonstrá-lo e fazer o outro compreender do que dizer que está errado simplesmente. E não há pior violência do que ouvir “você é errado, você deve ser assim”. Muita gente boa  está agindo desta maneira. Um exemplo muito interessante: o bispo dom Manuel Edmilson da Cruz recusou a comenda no Senado por conta do aumento que os “para-lamentares” deram a si mesmo, com tanta gente em situação difícil no país. Durante seu discurso, chegou a dizer que votar em político corrupto é votar na morte! E disse isso com uma firmeza, mas sem ser violento. Sem pisar nos outros, sem arrogância, sem ar de superioridade.

E o que pode ser considerado conquista até agora, ou só fica o gosto amargo de se sentir incapaz de mudar a realidade?

Podemos a partir deste movimento criar grupos de discussão política abertos. Podemos cultivar este hábito de analisar a gestão pública em sociedade, e não apenas o partido que quer montar um dossiê contra seu desafeto. Podemos, a partir deste estouro de cidadania, alimentar os observatórios sociais.

Mas tudo isso tem de envolver DIÁLOGO. Sem comunicação não há como desenvolver consenso.

Sem diálogo, sem mente aberta, restará apenas a babel dividida, com cada grupo usando do MEDO do outro praticar um “golpe”. E agora, com a facilidade de se criar listas de assinaturas no AVAAZ, ou de se criar eventos no FACEBOOK, veremos muito ruído, muita proposta froxa, solta, sem embasamento. Se tiver medo, não aja! Pense antes. Não vamos mudar o Brasil de um momento para o outro, melhor pensar e pesquisar antes de agir.

Só com muito desprendimento, diálogo e amor ao próximo será possível, realmente, discutir os assuntos de gestão pública de maneira a frutificar no longo prazo.

E será necessária persistência para semear um novo Brasil…. como o caso do Plantador de Sementes.

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One thought on “O gosto amargo (ou libertador) do silêncio

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