Não é o vinagre que está em jogo

Você está andando na rua, e então é abordado por policiais. O soldado, ao perceber que você tem uma garrafa de vinagre, manda você ir para a parede, e depois te leva para a delegacia.

Se restringiu o direito de ir e vir por mais do que poucos minutos de “averiguação”, se te levou para o DP no camburão, não tenho como entender diferente: te prendeu.

Por causa de uma garrafa de vinagre???!!!! Sim, aconteceu e é verdade, é fato, apesar da desinformação promovida pela grande mídia brasileira.

Queridos leitores, estamos passando por um momento importante.

As manifestações paulistanas não são por 20 centavos, na verdade estes 20 centavos são a gota d’água de algo muito maior:

Não são só 20 centavos!

A grande mídia desde o começo tentou associar a manifestação do Movimento Passe Livre à “baderna”, ao “vandalismo”. Tese que ainda é defendida pelo Governador Geraldo Alckmin em espaço cedido pelo conservador jornal “O Estado de São Paulo”, e repercutido pela revista Veja

O grande problema dessa associação, é a falsa idéia de que se há manifestação, há “baderna e vandalismo”. E que, a partir deste salto lógico, não seria necessário um julgamento sobre o fato: poderia o policial descer a borracha, prender e tudo ficaria por isso mesmo. Como se o policial pudesse “prever” o crime que ainda não aconteceu, só com base no comportamento “manifestação”.

Algo como um Minority Report em versão tupiniquim, onde bastaria o porte do Vinagre para descer o reio. E aí fica a dúvida sobre quem é o vilão e quem é o mocinho – o elegante que aparece à mídia dizendo o que você deve pensar, ou o que está na rua com uma mensagem à sociedade e ao governo?

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Vinagre-Final-HIFI

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Só por que a mídia pinta de um jeito a situação, será que ela aconteceu assim mesmo?

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“Tá, mas eu não uso ônibus”. A questão é maior que o passe do ônibus, pois o que está acontecendo é um impedimento do direito de expressão, do direito de se manifestar.

O primeiro documento escrito que temos história que colocou um freio na condição absoluta do Rei (cuja palavra era lei, vida e morte), foi a Carta de Direitos inglesa (Bill of Rights de 1689), que entre outras coisas instituiu o Direito de Petição com a garantia de não ser preso por peticionar ao Rei.

Petição? Hein??

Petição é apresentar uma demanda ao governante (na Idade Média, o rei. Hoje, um prefeito, governador, presidente).

Petição é apresentar um fato e lhe pedir providências, pedir direito, cobrar obrigação do Estado.  Aposentadoria digna, transporte público, saúde, bom uso do dinheiro público e não corrupção / mensalão, economia funcionando bem e gerando emprego, tudo isso é exigível do Estado por ser sua obrigação.

O que vemos em relação à situação caótica do país? Não vemos caminho para levar ao governante os nossos anseios, o que precisamos. Temos somente as fantasiosas e marqueteiras campanhas eleitorais, que se propõem a substituir o diálogo, tão necessário, entre Administração Pública e Cidadão (sim, governador e prefeito são Administração Pública e não reis!!!).

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AÍ É QUE ESTÁ O CORAÇÃO DA QUESTÃO!!!

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Se ao apresentar uma manifestação justa, como reclamar pelo aumento de 20 centavos do passe de ônibus, os manifestantes são recebidos pela tropa de choque com tiro de borracha e gás lacrimogênio, que governo é esse? Qual a diferença dele e dos monarcas do passado que mandavam quem o questionava para o calabouço, para a gaiola, para o tronco, ou para a guilhotina? E se, para piorar, contamos com imprensa que distorce os fatos e re-escreve a história com versões fantasiosas e coléricas (pense no Arnaldo Jabor e sua verborragia raivosa) para fazer o leitor ter ódio do manifestante?

FELIZMENTE há quem se lembre do gosto amargo da ditadura. FELIZMENTE, estes já se colocam em ação para ajudar os manifestantes. Alunos se organizam para obter um Habeas Corpus coletivo prevendo a atuação policial na próxima mobilização. Advogados experientes se oferecem para trabalhar gratuitamente em defesa dos manifestantes em página do Facebook.

MAS A QUESTÃO NA VAI PARAR POR AÍ. Já vejo o ranço da ditadura se agitando e sugerindo medidas “de ferro” contra os CIDADÃOS manifestantes.

É ÓBVIO que toda manifestação deve ser pacífica, e que abusos tem de ser coibidos, mas os fartos relatos de conhecidos e da blogosfera mostram o que está acontecendo. Pesquisem no Google e não fiquem apenas na grande mídia. Fatos isolados são noticiados como se fossem a realidade absoluta!!! Nisto, grande imprensa e governo se unem:

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mídia-podre-pt-br

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A mídia brasileira, em suas organizações de maior porte, não fazem justiça ao que se chama de JORNALISMO. Pior, o jornalista que trabalha em grandes jornais não se compromete com a verdade, mas sim com a opinião do editor (alinhada à opinião do dono, que tem interesses políticos e não jornalísticos). Duvida? Vale a pena ler este excelente texto e verificar as “barbeiragens” que a autora Cynara Menezes sofreu em seus textos, em sua carreira jornalística.

E o mais preocupante, é que sobre esta FARSA MIDIÁTICA, vemos tiranos revolverem o caldeirão do ranço da ditadura, mas sob nova roupagem. Como estes costumam seguir o exemplo dos EUA, que hoje pratica espionagem na internet, já vemos alguns defendendo “leis antiterrorismo” para poder “reforçar a ordem social no país”. [3 horas após publicar este post, recebi uma mensagem da AVAAZ sobre a edição de uma lei que torna as manifestações na época da Copa CRIME DE TERRORISMO, nos termos que especifica. Assine no site da AVAAZ aqui, e conheça a íntegra do PL aqui.]

Vivemos numa DITADURA MIDIÁTICA, com uma dobradinha entre governo e grande mídia!

Lembremos do Impeachment do Collor: aconteceu por força da mídia, e desde então os governantes sabem que precisam dela para manter sua “governabilidade”.

Os “punhos de ferro” dirão que não há por que sentir raiva, que a raiva leva à delinquência e que a delinquência deve ser punida. Pois bem, já explicada a diferença e desvinculação entre MANIFESTAÇÃO  e BADERNA (uma coisa não significa a outra, não são sinônimos, não têm relação imediata), cabe mostrar um trechinho de um filme sobre o Malcolm X, interpretado pelo excelente ator americano Denzel Washington:

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ORAS!!! É uma tremenda má-fé a polícia (com o evidente aval do atuial governador do Estado de SP – Alckmin) bater e depois dizer que os manifestantes são “baderneiros”. O filme acima fala da questão racial, e embora a questão do vinagre não seja racial, ela envolve sim esta presunção de violência por quem está tão somente reivindicando direitosEsta inversão do agressor colocar a culpa na vítima, presente em tantos tipos de violência que temos em sociedade quando se quer favorecer o opressor (estupro, assédio moral, bullying, violência ao idoso, doméstica, infantil, entre outras).

Mas desta vez, eles vão tomar tombo. Pois desta vez, os manifestantes não estão lidando com os hipossuficientes do Pinheirinho ou os moradores de rua da Cracolândia, pessoas esquecidas, como se não fossem titulares de direitos como quaisquer outras pessoas neste nosso Brasil tão desigual.

Desta vez, estão lidando com CIDADÃOS cansados de ser espoliados pelos donos do poder, cidadãos que têm conhecimento jurídico para exigir seus direitos, como bem ilustrado neste filme de 1976. O assunto mídia x direitos individuais não é novidade … recomendo muito assistir “Network – Rede de Intrigas” – Vencedor dos Oscars de Ator (Peter Finch), Atriz (Faye Dunaway), Atriz Coadjuvante (Beatrice Straight) e Roteiro (Chayefsky).

Este filme demonstra o sentimento de indignação diante de tanta sacanagem cotidiana que somos forçados a engolir.

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É o que acredito.

Mas sei que será preciso algo mais.

Sei que será preciso que as pessoas mudem a forma de pensar, deixem de acreditar só no que passa na televisão e na grande mídia.

Por isso, escrevi este texto.

Como um pedido, para você que está inclinado à acreditar no ódio de governo lançado ao cidadão.

Repense.

Não pedirei para ir às mobilizações, nem para escrever textos, pois cada um sabe de si, no que pode ajudar. Mas apenas peço para reconsiderar.

Tudo começa no que cada um pensa, e sente, e daí externa nas atitudes do dia a dia.

E pode reparar, os grandes meios de comunicação (e a publicidade também) querem sempre nos dizer COMO e O QUE fazer, sentir, gostar…. COMO amar (como na novela), COMO viver (como o Eike Batista ou Chiquinho Scarpa), COMO ser feliz (com o novo Focus), como socializar (com uma Brahma num churrasco). Eles se colocam como intermediários entre nós e nossa vida. Mas NÃO PRECISAMOS DELES para viver.

Do mesmo filme NETWORK:

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A grande imprensa e os governos de hoje extraem seu poder justamente do pensamento e da crença, e justamente por isso eles investem tanto dinheiro em MARKETING POLÍTICO, em “pesquisas focais” para falar o que os cidadãos/consumidores querem que eles falem – mas mudam de 6 para meia dúzia entre governos do partido A e B. Justamente por isso fazem tabelinha com a grande mídia. Justamente por isso casa tão bem grandes empresas interferirem nas políticas públicas (como as concessionárias de transportes públicos). Justamente por isso eles não resolvem os problemas; maquiam. E hoje, considerando nossa educação deficiente, maquiam com estatísticas parciais, quando não produzidas por critérios duvidosos, sem levarem em conta medidas estruturais, de longo prazo, que poderiam realmente resolver nossos problemas.

E justamente por isso, por esta ditadura midiática e de estatísticas maquiadas, é que encerro este texto com a fala de Charles Chaplin, em o Grande Ditador.

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insanidade

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4 thoughts on “Não é o vinagre que está em jogo

  1. Infelizmente, torna-se mais claro à cada dia , o tipo de democracia que temos em nosso pais… é uma pena que tantos morreram e ainda continuarão morrendo antes de termos realmente nossos direitos respeitados …

    • Nair, obrigado por participar! Não posso esperar que tudo mude do dia pra noite. Mas espero que as mentes e corações mudem pouco a pouco, gota a gota. Isso pode acontecer, e toda longa jornada começa com um primeiro passo. É preciso fé e esperança em nós mesmos! Abraço.

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