Quem não tem argumento, intimida.

A mente humana é preguiçosa. Isto não é um mal, desde que não seja EXCESSIVAMENTE preguiçosa. Na verdade, o que chamo de ‘preguiça’ é uma estratégia de sobrevivência: a mente é um órgão identificador de padrões, por excelência. Assim, não precisamos analisar conscientemente toda e qualquer informação que nos chega pelos sentidos (percepção).

Pense em quando você aprendeu a dirigir ou andar de bicicleta: com o tempo o julgamento e a ação se tornam automáticos. Tornam-se hábitos, associações automáticas. Se buraco, então desvie. Se curva, então seta antes.

O problema é que, vez por outra, acabamos sendo mais ‘preguiçosos’, ou seja, padronizando eventos que percebemos pela primeira vez, errando na avaliação.

Considerando que nossa mente trabalha no campo das idéias (signos, mais precisamente), e estas concatenadas estruturam a linguagem, que por sua vez estrutura a comunicação,  é preciso ter em mente que uma coisa é o que percebemos, outra coisa é o objeto a ser observado, e outra coisa ainda diferente é a interpretação que tiramos disso tudo. Não entrarei nos detalhes da ciência que estuda esta campo (Semiótica Peirciana), mas o importante é perceber que o objeto, que seria ‘a verdade’ numa visão cartesiana, não necessariamente é a verdade para a nossa mente, que pode ver um objeto e associar idéias que não tem nada a ver com ele. Por exemplo, se sinto o cheiro da chuva, pode me disparar a idéia de umas férias no campo. Se ouço o ‘tsss’ de uma latinha sendo aberta, pode me disparar a sede.

E o que isso tem a ver com a vida em coletividade?

Tem a ver que nós vivemos numa sociedade, e para nos inserir e nos relacionar usamos da comunicação.

Então, estamos presos à esta diferença entre o objeto, o percebido e o interpretado.

Não pretendo que os leitores estudem o tema em detalhes. Penso apenas que, ao deixar de ver o mundo com os olhos do ‘absolutismo perceptivo’, aquele que ‘jura de pé junto que o mundo é do jeito que eu vejo’, e só há um jeito de ver o mundo, nós podemos perceber os diferentes níveis de comunicação, e assim questionar até aonde as coisas são do jeito que eu realmente acredito ser, até que ponto estão tentando me vender uma idéia. Podemos, inclusive, compreender a visão do outro, e aí comparar com a nossa, e então ter a liberdade de escolher qual é a preferida. Neste ponto estamos bem próximos do conceito sociológico de alteridade, que pode ser definido sinteticamente como a capacidade de ver com a visão do outro.

E, mais uma vez, o que isto tem a ver com a coletividade?

É que a coletividade, seja condomínio, sindicato, universidade, associação, município, etc, envolve discussão democrática de diferentes pontos de vista para avaliar problemas e decidir por soluções – de igual para igual. Aqui, o que vale é a razão do argumento, e não quem é ‘dono’ ou tem mais dinheiro (ou pelo menos é assim que deveria ser). E, justamente aqui, se a mente é preguiçosa e argumentar racionalmente é cansativo, o marketing político encontra campo fértil, trabalhando a imagem de campanha, que não precisa guardar relação com o que o candidato ou a proposta efetivamente são.

A comunicação não ocorre como na informática, com ‘pacotes’ indo para lá e para cá. A comunicação entre as pessoas depende de como recebem a informação sobre o objeto, e de como interpretam esta informação. Por isso tantos pontos de vista diferentes, por isso, uma democracia saudável sempre será ruidosa e cansativa. Se o ambiente dito democrático que você vive pensa todo na mesma direção, CUIDADO! Algo está errado.

Neste ponto, aqueles que vêm apenas de maneira cartesiana as coisas (e sou formado engenheiro, então posso dizer) surtam e acabam se afastando destes ambientes coletivos / públicos que envolvem, sempre, um certo grau de política. Esta pode ser conceituada como o jogo de poder, que seria a capacidade de impor um interesse sobre o outro discordante.

Retomando, é através da comunicação – e da manipulação da percepção a ser transmitida– é que se pode alterar a imagem (especialmente em seus aspectos emocionais) de uma idéia / pessoa, seduzindo a preguiçosa mente a deixar de investigar aquilo que lhe é apresentado, e apenas aceitar a versão que lhe é oferecida associando a um padrão anterior conhecido, a um pré-conceito. E como as emoções são boas para disparar o gatilho destas associações … vejam as eleições atuais para prefeito de São Paulo (Serra x Haddad), ambos os lados buscam associar o candidato adversário a algum fator de rejeição.

Viagem? Acontece aos montes. A mídia, vez por outra decide se colocar no papel de Relações Públicas do governo e dispensa-lhe apenas adjetivos respeitáveis – enquanto atira adjetivos desrespeitáveis aos desafetos do momento. Assim foi, em passado recente, com a revista Veja, ao atacar o ministro Joaquim Barbosa por tirar licença, e agora ao ovacioná-lo como herói nacional (e assim evidenciar os ataques aos atuais desafetos – os condenados do mensalão e o PT em época eleitoral). Veja:

Pegando no pé:

http://veja.abril.com.br/blog/reinaldo/geral/ou-joaquim-barbosa-volta-ao-trabalho-ou-tem-de-se-despedir-do-stf-e-simples/

Ovacionando:

http://veja.abril.com.br/blog/reinaldo/tag/joaquim-barbosa/

Ou ainda temos como sedução emocional a oferta de uma tentadora vantagem, sem detalhar as ‘letras miúdas’ do contrato, sem evidenciar a repercussão da decisão, degenerando uma decisão racional e democrática em infantil e impulsiva. A Copa do Mundo por exemplo, que está consumindo tantos recursos que poderiam ser investidos em educação – saúde – segurança – transportes, só porque ‘é legal’ (este é o discurso para a população, pois ‘legal’ para a FIFA é ter isenção de tributos e lucrar rios de dinheiro com o evento, e a conta final pra pagar fica nas costas do contribuinte). Quem tenta te persuadir de que a ‘Copa é legal’ afastando a razão?

Duas campanhas publicitárias vão neste sentido: Itaú e Brahma. “Vamos jogar bola que muda as pessoas. Jogar bola muda o amanhã.” O texto, a imagem e o som parecem muito mais propaganda eleitoral que propaganda de banco!!

E esta outra, que busca dar um ‘cala a boca’ nos críticos (nesta semana um avião cargueiro MD-11 ficou encalhado 3 dias no Aeroporto de Viracopos, provocando o cancelamento de mais de 300 vôos … vamos ignorar os problemas de infraestrutura??):

E a mesma coisa acontece, em menor grau, nas coletividades menores. Mas ao invés de ter o tablóide Veja na escola, no sindicato temos os fofoqueiros e os assediadores atuando de maneira a vitaminar ou a depreciar a imagem das pessoas de acordo com a agenda política do momento, . É isso mesmo, os FOFOQUEIROS e os ASSEDIADORES MORAIS. Estes, não raro na impossibilidade de argumentar e vencer pela razão, partem para desgastar a imagem do ‘adversário’ político. E aí, todo o tipo de invenção é válido. Um tipo que merece ser destacado, pela frequência com que ocorre, e com a facilidade pois até o mais torpe ser humano sabe fazê-lo, é usar o argumento ad persona. Significa atacar não o argumento, mas sim a pessoa. O perigo mora nas outras pessoas (o público ou auditório ao qual os debatedores se dirigem) não perceberem o melindre e deixarem de avaliar as idéias, para avaliar se o atacado realmente é gordo, magro, narigudo, feio, mentiroso, etc etc. E estes dois tipos de ataques (à imagem e o assédio moral) não são tratados de maneira eficaz pelo Direito, conferindo um bom grau de impunidade.

Isto acontece demais nas campanhas eleitorais, até de certa maneira como um pacto velado entre os candidatos. Pois assim, não há necessidade de se comprometer em propostas reais e viáveis. E como o cidadão brasileiro gosta de uma novela, acaba caindo nesta arapuca.

Voltando à menor escala, numa agremiação estudantil, num sindicato, ou na associação de bairro, a fofoca, o ridicularizar o outro argumentante, serve apenas para desviar o foco do objeto verdadeiro da discussão. Exemplo: o presidente da associação agiu negociando em nome da associação, sem poderes para tanto, eis que é meramente executivo e quem delibera sobre negociação é a Assembléia Geral. O mais comum de ocorrer, ao ser questionado, é atacar a pessoa de quem o critica. Seja atacando pessoalmente, seja se fazendo de vítima “mas eu sempre me dôo pela associação sem receber nada em troca”, são estratégias para tirar o foco do ato praticado e projetar culpa na pessoa que faz a crítica, aos olhos dos outros.

Aqui amarro o pensamento que comecei este texto. Se há o objeto, o que percebemos, e o que interpretamos, é importantíssimo neste tipo de situação prestar muita atenção e evitar o apelo emocional percebido (se fazer de vítima e provocar sentimento de culpa em quem critica, ridicularizar e buscar o riso sobre o outro, intimidações), que terá tão somente o objetivo de tirar o foco do que realmente importa: o ato praticado sem legitimidade.

Assim é com a maioria das discussões que envolvem diversos graus de coletividade: quem tem argumento, não precisa levantar a voz, debate de igual para igual sem querer calar o outro, mas sim convencer pela razão. Quem não tem argumento ou razão, intimida.

E neste campo de discussões, que facilmente se transformam em rancores e amarguras pessoais, degenerando a democracia em disputas de poder e vaidades, que bom seria guardar o ensinamento do mestre fundador do Judô, JIGORO KANO:

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NUNCA TE ORGULHES DE TER VENCIDO UM ADVERSÁRIO.

O QUE VENCESTE HOJE PODERÁ TE DERROTAR AMANHÃ.

A ÚNICA VITÓRIA QUE PERDURA É A CONQUISTA SOBRE A PRÓPRIA IGNORÂNCIA.

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3 thoughts on “Quem não tem argumento, intimida.

  1. Cheguei até aqui por uma amiga, este post está mais atual do que nunca! Os protestos acontecem aqui em SP cada vez com mais frequencia. Seus críticos o reduzem a um simples valor de R$ 0,20, mas é muito mais que isso. É contra um Estado agressor e opressivo. Eu vi a policia partir para cima dos manifestantes, sem a menor provocação. As pessoas, no conforto de suas residencias, com o computador ao seu lado, ficam criticando sem ao menos saber que o ocorreu, defendendo a ação truculenta da policia. Deixam-se ser manipulados pela grande mídia, encabeçada pela Rede Globo. Eu queria saber o que estava acontecendo e hoje vi. São pessoas cansadas de corrupção, impostos e preços altos.E com tantos problemas, uma Copa sendo nos enfiada goela abaixo. Uma Copa corrupta, superfaturada.
    Me entristece ver as pessoas elogiando os manifestantes da Turquia, Nova York, Siria, etc. são ativistas, mas aqui são bandidos e merecem opressão policial.

    • Seja bem-vinda, Roberta!

      Tento fazer este blog gota a gota, mas cada post é bem cultivado! Que bom que gostou.

      Penso que nós coletivamente ainda temos uma certa “síndrome de vira-lata”, talvez por não termos conquistado nossa independência pelos nossos braços. Os chilenos pararam os espanhóis na luta armada e houve derramamento de sangue; os indianos resolveram com Gandhi e não-violência.

      E nós?

      Pedrinho supostamente disse “independência ou morte” e num passe de mágica passou de tirano a herói? Aham….

      • Obrigada pela recepção! Adoro essas questões.
        Realmente, nada aconteceu no país vindo de baixo. Tudo sempre foi articulado por quem estava no poder, vide a indepedencia, abolição da escravatura, etc. visando seus próprios interesses.
        Acho que agora algo mudará, ainda não consegui ver o que. Há muito tempo, todos estavam calados.
        Segunda estarei lá, chega de ativismo de sofá. Esse não funciona.
        Espero que a policia seja menos truculenta. Não tenho envolvimento com nenhum grupo politico, mas acho que somente assim algo pode melhorar.

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