Divina Comédia Sindical

Uma coisa sempre me chamou a atenção quando comecei a participar de atividades sindicais, um importante tipo de atividade coletiva.

Os colegas mais antigos, no início, cumprimentavam efusivamente, diziam o quanto era bom receber ‘sangue novo’ no sindicato, que as novas idéias seriam boas para ‘oxigenar’ o sindicato.

Mas com o tempo percebi que, de fato, o braço e o sangue novo são bem-vindos no sindicato. As novas idéias, estas nem tanto. Algo como a Divina Comédia: Aqueles que aqui entram devem deixar do lado de fora todas as idéias novas … ou algo do tipo.

Obviamente, o sindicato tem a sua razão de ser enquanto entidade representativa e defensora de interesses comuns dos filiados e além destes, como se mostraram decisivos no movimento das diretas já, que levou à Constituinte e à nova, última e Cidadã Constituição Federal de 1988.

Pois bem. Mas o que foi feito dos sindicatos HOJE? Além do contexto político atual, é preciso pensar no contexto da tecnologia de comunicação atual.

Nunca foi tão fácil e barato criar, reproduzir e publicar conteúdo. Este blog me custa algum tempo e pode ser publicado gratuitamente. As mídias sociais disseminam não mais em árvore, mas em rede, as informações. Ou seja, diminui a dependência de um lider, que tem o poder de engavetar a informação ou oferecê-la aos seus subordinados, como numa hierarquia militar. Ou seja, a comunicação barata torna o fluxo muito mais HORIZONTAL do que foi antigamente VERTICAL, e o natural é que evoluamos de uma condição onde prevalecia a PESSOA articulada politicamente, que dominava um ‘nó’ da árvore de comunicação, para a melhor IDÉIA, que deve ter maior alcance e penetração através dos recursos atuais de comunicação.

Aí, voltamos à pergunta. O que foi feito dos sindicatos HOJE?

Não posso falar de sindicatos que não conheço; posso falar apenas do sindicato dos Auditores Fiscais da Receita Federal do Brasil, o Sindifisco Nacional, e sem entrar em detalhes técnicos e da campanha atual, percebo que:

0. Começamos no ‘zero’ pois este ponto é pré-requisito em qualquer processo deliberativo saudável. Podemos dividi-lo em 4 etapas básicas que, se pretendem levar à verdadeira democracia, exigem a participação dos indivíduos / filiados / cidadãos em todas elas:
i. Livre Aquisição da Informação: como perceber situações se a informação é escondida, sonegada, falta transparência?
ii. Livre Iniciativa e Livre Participação de Discussão e Análise da Informação: como ser autônomo, livre, e verdadeiramente participar das deliberações, se não há voz para apontar interpretações pessoais e críticas às interpretações que servirão, num raciocínio analítico, para apontar as propostas a serem deliberadas?
iii. Deliberação / Voto: Percebam que este aqui, se não tem os antecessores realizados democraticamente, passa a ser uma macaquice de circo apertando botão ou fazendo ‘x’, mas sem exercício real da democracia autonomamente.
iv. Execução / Acompanhamento: Após os 3 passos acima, é preciso acompanhar para verificar se a prática levou ao resultado previsto na análise, e se for o caso, reavaliar (feedback) a decisão tomada.

1. Existe uma estrutura de poder que, mesmo não formalmente instituída, luta como pode para se manter inalterada, concentrando o poder decisório em instâncias eleitas não com base num verdadeiro voto representativo, mas sim num voto ‘cheque em branco'(Diretoria Executiva Nacional, Conselho de Delegados Sindicais e Delegacias Sindicais).

2. As instâncias que podem ser verdadeiramente representativas, em que quaisquer pessoas podem se oferecer a participar apoiando-se apenas na qualidade da sua idéia, estas são desprestigiadas, desvalorizadas, humilhadas (aqui entram o Espaço do Auditor, o CONAF e as Plenárias), incentivando a percepção de que a democracia é “inútil blá-blá-blá estéril e dispendioso”, que o que resolve (estas os Getulistas vão gostar) é A MÃO DE FERRO DO PRESIDENTE para ‘liderar as bases que, sem este líder, jamais seria capaz de perseguir os objetivos institucionais do sindicato‘[ironia].

3. As idéias apresentadas, se não estão ‘apadrinhadas’ por algum dos ‘líderes do status quo’, têm pouquíssimas chances de receber visibilidade e alcance aos colegas filiados. Isso mesmo, nem são ouvidas, são ignoradas, abortadas, nem chegam a conhecer o 4 passos do processo deliberativo. Sem acesso à estes, a idéia não alcança a Ágora sindical, sendo justo dizer que, sem apadrinhamento ou articulação política, o filiado não é cidadão dentro do sindicato, pois não tem direito à voz, pois não é ouvido. O marasmo e a burocracia sindicais se encarregam de ‘sentar em cima’ das novas idéias, seja através de uma pauta extensa do CDS, que acaba priorizando os assuntos escolhidos à dedo pelos mais politicamente articulados, seja através do ‘esquecimento’ de alguma liderança de encaminhá-las quando oportuno, seja pela decisão unilateral da mesa do CDS ou da DEN de simplesmente não conhecê-la.

4. Além de todo este emaranhado, temos também (como em qualquer democracia) a disputa política visando as eleições. Seria saudável, se não houvesse a todo momento a tentativa de imputar ao adversário uma imagem desgastante, o que muitas vezes coloca o simples filiado no meio de um fogo cruzado, sem ter como apresentar as suas legítimas demandas para uma apreciação imparcial. E aqui é que este monstrengo do status quo sindical atual mostra como se mantém. Quando poderia receber novas idéias e evoluir para uma coletividade colaborativa, tende a perceber estas novas como na guerra fria, em que ou a idéia é ‘aliada’ ou ‘inimiga’.  Evidentemente esta percepção guarda em si um bom grau de patrimonialismo, ou seja, a confusão do ‘eu governante’ com o ‘eu particular exercendo cargo temporário e finito representativo’, pois ao se dar visibilidade a uma idéia que não seja do governante, este automaticamente se sente pessoalmente ameaçado. Este é um ranço histórico brasileiro sem previsão de curto prazo para acabar, os leitores podem verificar estes padrões nos diferentes níveis de coletividade: condomínio, sindicato, município,  estado e nação.

A imagem que fica, depois de apresentar todo este emaranhado de interesses sobrepostos no espaço da coletividade sindical, é que o colega, sozinho, pode ter sido sincero ao me dar boas vindas ao Sindicato. Mas, em seu comportamento social em conjunto com o de outros colegas, forçando que eu me alinhe à corrente ‘A’ ou ‘B’, rejeitando ou ‘esquecendo’ as minhas  novas idéias em gavetas (e as suas, e a de todos),  acaba contribuindo para a perpetuação de uma estrutura que não visa receber novas idéias verdadeiramente, que na realidade divide os filiados em 2 classes: a dos ‘cidadãos’, com efetiva voz e influência nos 4 passos do processo deliberativo, e os ‘apertadores de botões’ ou ‘marcadores de x’, que apenas dizem SIM ou NÃO para pacotes fechados. Esta estrutura busca apenas perpetuar a disputa entre as polaridades existentes, sem criar mecanismos institucionais que abram caminho para verdadeiras novas idéias, recolhendo o presidente e as altas lideranças da posição de mandante que conquistou uma onipotente carta branca por prazo certo na eleição, para a posição de organizador, facilitador e real representante dos interesses dos indivíduos que compõem esta coletividade. Neste caso, a instituição sindical.

 

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